Resumo
A velocidade com que a inteligência artificial avança está reformulando as regras do mercado de trabalho, deslocando o foco de “qual ferramenta dominar” para “que tipo de profissional se tornar”. O risco central está na fragilidade de carreiras construídas sobre o domínio de tecnologias específicas, que se tornam obsoletas rapidamente. Mas como construir uma carreira à prova de futuro? Esse foi um dos questionamentos debatidos durante a Rio Innovation Week, evento em que Andrea Paiva participou como palestrante e mediadora de alguns painéis. Confira alguns insights neste artigo.
Artigo escrito por Andréa Paiva – Diretora de Pós-Graduação Digital na FIAP. Graduada em Tecnologia pela FATEC SP, Doutora em Administração pela FEA-USP, Especialista em Empreendedorismo pela Babson College e em Gestão de Dados pelo MIT.
A inteligência artificial está mudando o mercado de trabalho em uma velocidade que desafia empresas, universidades e profissionais. Para quem está entrando no mercado ou buscando uma especialização, a pergunta talvez não seja mais “qual tecnologia preciso aprender?”, mas “que profissional preciso me tornar para continuar relevante à medida que a tecnologia evolui?”.
Essa foi uma das principais reflexões que levei do Rio Innovation Week 2026. O tema da edição — “Simbiose: o futuro não acontece isolado” — reforçou uma ideia que considero fundamental: a IA não precisa competir com a inteligência humana. Ela pode potencializá-la.
Ao longo do evento, participei de três discussões que, embora partissem de perspectivas diferentes, chegaram a uma mesma conclusão: o profissional com mais capacidade de adaptação não será necessariamente aquele que domina mais ferramentas. Será aquele que construiu uma base sólida e desenvolveu a capacidade de aprender continuamente, resolver problemas e criar.
A tecnologia muda, as bases permanecem
No palco Open Innovation, discutimos a inteligência artificial como fator de competitividade. Minha principal provocação foi que a vantagem não está na tecnologia em si, mas na capacidade de conectá-la a problemas reais, estratégia, processos e pessoas.
Isso vale para as empresas, mas também para cada profissional.
A IA generativa democratizou o acesso a ferramentas que antes estavam restritas a especialistas. Profissionais de marketing, finanças, recursos humanos, direito, educação, produto ou operações já podem utilizá-la para analisar informações, automatizar tarefas, criar conteúdos e testar hipóteses.
Mas, quanto mais poderosa se torna a tecnologia, menos sentido faz construir uma carreira baseada apenas no domínio de uma ferramenta específica.
Ferramentas mudam. Modelos são substituídos. Linguagens evoluem. Agentes ganham novas capacidades. O que permanece é o conhecimento que permite entender problemas, fazer escolhas e aprender novas tecnologias.
Por isso, ter bases sólidas continua sendo fundamental. Uma boa formação não perde valor diante da IA. Ao contrário: ela passa a ser a infraestrutura que permite ao profissional utilizar a tecnologia com mais profundidade e ampliar sua capacidade de atuação.
A mentalidade de aprendiz será uma competência profissional
É aí que entra uma segunda capacidade que considero essencial: a mentalidade de aprendiz.
Curiosidade não é apenas uma característica pessoal. É uma competência profissional. É ter disposição para fazer perguntas, investigar, testar, errar, buscar diferentes perspectivas e atualizar constantemente o próprio repertório.
Essa capacidade ganha ainda mais importância porque a IA está alterando a própria forma como aprendemos.
Durante muito tempo, um profissional em início de carreira desenvolvia experiência realizando tarefas mais simples, observando profissionais mais experientes e, gradualmente, assumindo problemas mais complexos. Agora, parte dessas atividades pode ser automatizada.
Se a IA executa algumas das tarefas que tradicionalmente nos ajudavam a aprender, como vamos construir repertório e experiência?
Essa é uma questão que empresas, universidades e profissionais ainda precisam responder. E ela muda também a forma como devemos pensar uma especialização.
Aprender não pode significar apenas acumular conteúdo. Precisamos criar experiências que desenvolvam capacidade de investigação, experimentação, colaboração e resolução de problemas. Projetos reais, desafios complexos e situações que exigem tomada de decisão passam a ter ainda mais valor.
Foi também essa preocupação que apareceu no painel que mediei sobre inclusão digital e transformação social. A discussão mostrou que oferecer acesso à tecnologia não é suficiente. É preciso desenvolver repertório, autonomia e capacidade de transformar conhecimento em oportunidades.
Para mim, essa é uma das grandes mudanças da educação na era da IA: não se trata apenas de aprender novas tecnologias, mas de formar pessoas capazes de aprender continuamente e utilizá-las para resolver problemas reais.
Resolver problemas será mais importante do que executar tarefas
Se a tecnologia assume cada vez mais atividades operacionais, o valor do profissional tende a migrar para aquilo que exige compreensão do contexto, pensamento crítico, criatividade e capacidade de fazer conexões.
Saber utilizar uma ferramenta de IA pode gerar produtividade. Mas, saber identificar o problema certo para resolver com ela gera valor. É isso que precisa estar no centro da formação profissional.
No painel “Educar na era da IA: como preservar a inteligência humana em um mundo de algoritmos?”, essa questão ganhou outra dimensão. Se máquinas conseguem produzir textos, imagens, códigos e análises cada vez melhores, quais capacidades humanas precisamos desenvolver?
Pensamento crítico. Criatividade. Capacidade de fazer conexões. Comunicação. Ética. Curiosidade. E, principalmente, capacidade de aprender.
Essas competências não rivalizam com a IA. Elas são o que permite utilizá-la melhor.
A IA pode ser uma poderosa parceira de aprendizagem, produtividade e criação. Pode acelerar a pesquisa, ampliar possibilidades, ajudar a testar hipóteses e reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas.
Mas ela não elimina a necessidade de formação. Ela aumenta a importância de uma formação que desenvolva autonomia intelectual.
O profissional que queremos nos tornar
Por isso, para quem está fazendo uma pós-graduação ou buscando uma especialização, minha principal recomendação é não pensar apenas no próximo cargo ou na próxima tecnologia que precisa dominar. Pense no profissional que você quer ser daqui a três ou cinco anos.
Construa uma base sólida na sua área. Desenvolva capacidade de resolver problemas. Aprenda a trabalhar com tecnologia, mesmo que você não seja uma pessoa de tecnologia. Use IA para ampliar sua produtividade, sua capacidade de análise e sua criatividade. E, principalmente, desenvolva uma relação permanente com o aprendizado.
As carreiras à prova de futuro não serão construídas por profissionais que sabem tudo. Serão construídas por profissionais que sabem aprender continuamente.
Esse é o verdadeiro sentido de uma educação preparada para a era da IA: não formar profissionais para uma tecnologia específica, mas pessoas capazes de continuar relevantes mesmo quando a tecnologia mudar.
Porque ela vai mudar. Sempre.
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Autora: Andréa Paiva – Diretora de Pós-Graduação Digital na Fiap (Grupo Alura + FIAP + PM3 + StartSe), onde lidera o desenvolvimento de soluções educacionais que integram teoria e prática, com foco em impacto real na formação profissional. É graduada em Tecnologia pela FATEC SP, Doutora em Administração pela FEA-USP, Especialista em Empreendedorismo pela Babson College e em Gestão de Dados pelo MIT. Possui mais de 20 anos de experiência no ensino superior e atuação em projetos estratégicos em EY, PwC e Accenture. É voluntária no MCIO, como mentora de executivas em transição de carreira, colunista do AI Business Journal e host do The EdUP Experience Podcast, debatendo inovação e futuro da educação. LinkedIn | E-Mail





