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Inovação

Inovação na China: como o interior se tornou uma plataforma estratégica de economia digital

Publicado

12 de maio

Inovação na China: como o interior se tornou uma plataforma estratégica de economia digital
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Resumo

Cidades do interior não precisam ser um gargalo para o desenvolvimento. Na província de Guangxi, a inovação acontece através da transformação do território em uma plataforma estratégica. Ao unir tradição, tecnologia onipresente e plataformas de e-commerce, o modelo chinês oferece lições valiosas para o Brasil sobre como valorizar saberes locais na era digital.

Por Mara Carneiro – Cofundadora do Impact Lab no Grupo Alun, professora nas áreas de inovação, gestão de mudança e empreendedorismo da FIAP e FIAP para Empresas, e fundadora do MatriHub.

Este texto integra uma série de aprendizados e insights colhidos a partir de uma imersão na China, realizada em outubro de 2025 pela professora Mara Carneiro. Neste último artigo da série, a inovação não se apresenta como ruptura urbana ou concentração tecnológica, mas como rearranjo territorial intencional.

Em muitas narrativas de desenvolvimento, o interior é frequentemente lido como um passivo, um problema a ser resolvido: pouca escala, baixa produtividade, distância dos mercados, gargalos logísticos. A solução, em geral, costuma ser urbanizar, industrializar, padronizar.

No entanto, a experiência de Guangxi, cidade do interior ao sul da China, sugere outra lógica. Ali, o território não é tratado como déficit de desenvolvimento, mas como base de um arranjo econômico deliberado que integra turismo, políticas voltadas a minorias étnicas e infraestrutura digital de mercado.

Essa escolha não elimina tensões, pelo contrário: ela as explicita. Mas é justamente na gestão desse equilíbrio, entre preservação cultural, geração de renda e escala econômica, que o interior deixa de ser margem para se tornar estratégia.

Território como ativo

Historicamente, o interior foi tratado como espaço a ser “integrado” ao progresso, geralmente a partir de modelos dos grandes centros urbanos. Mas em Guangxi o ponto de partida é outro.

O território não é apenas receptor de políticas públicas, mas ativo econômico, cultural e simbólico, com escala populacional, diversidade étnica e papel estratégico claramente definidos.

Localizada no sul da China, Guangxi faz fronteira com outras províncias: Yunnan, Guizhou, Hunan e Guangdong, além de um país: Vietnã. Essa posição a coloca como zona de transição entre o interior montanhoso do sudoeste chinês, o litoral sul e as rotas de integração com o Sudeste Asiático.

Ao mesmo tempo, a província está fora do eixo “óbvio” de desenvolvimento representado por Pequim, Xangai e Shenzhen. Justamente por isso, é tratada como território de política deliberada, e não como efeito colateral do crescimento econômico.

Essa estratégia se materializa de forma concreta na valorização das minorias étnicas que habitam a região. Os Zhuang são o grupo majoritário em Guangxi e estruturam boa parte das políticas culturais e territoriais locais. Mas foi no contato direto com a minoria Yao, especialmente com o subgrupo conhecido como Red Yao, que essa lógica se revelou com mais profundidade.

Visitamos os terraços de arroz habitados pela minoria Yao e, em especial, a vila de Huangluo, internacionalmente conhecida como Village of Long-Haired Women (a vila das mulheres de cabelo longo). Ali, vivem mulheres do subgrupo Red Yao, cuja relação com o cabelo é parte estruturante de identidade, ciclo de vida e organização social.

O cabelo pode ultrapassar dois metros de comprimento, não costuma ficar grisalho ao longo da vida adulta e só é cortado uma única vez, geralmente após o aniversário de 18 anos, quando marca uma transição simbólica importante. A partir dali, passa a ser preservado e incorporado ao penteado tradicional.

O cuidado cotidiano dos cabelos envolve a lavagem com água de arroz fermentada, prática transmitida entre gerações e associada, localmente, à força, brilho e longevidade dos fios. O que poderia ser reduzido a uma curiosidade estética ou atração turística é, na verdade, um sistema de conhecimento ancestral, profundamente ligado à agricultura do arroz, à relação com o território e à autonomia cultural da comunidade.

Hoje, esse saber é validado pela ciência, dando origem a cosméticos baseados no arroz fermentado. O diferencial? O arranjo garante que a renda retorne à comunidade. O território deixa de ser paisagem para operar como plataforma: o saber não é extraído de forma predatória; ele é reconhecido, traduzido e protegido, dentro de um arranjo que articula ancestralidade, ciência e mercado.

A cultura não é apenas preservada como memória, mas vista como ativo econômico com tensões reais, limites claros e a necessidade constante de governança para evitar a descaracterização. O olhar para a ancestralidade não é ingênuo: ele é cauteloso, mediado e negociado.

Guangxi mostra que tratar o interior como ativo não significa congelá-lo no passado, mas desenhar caminhos em que tradição, ciência e renda possam coexistir. Não sem conflitos, mas com intenção.

Fotos do museu e da pequena fábrica de shampoo, fruto de tradição e de pesquisa, unindo os saberes populares da região com ciência e modernidade – Clique para ampliar

Turismo e tecnologia como infraestruturas

O redesenho de Guangxi utiliza o turismo como instrumento de ativação territorial, e não como fim em si mesmo. A estruturação desse setor envolve investimento em infraestrutura local, incentivo à hospitalidade comunitária e valorização de paisagens naturais e narrativas culturais associadas a minorias étnicas.

O efeito direto é a criação de novas fontes de renda sem exigir, de imediato, o deslocamento das populações para os grandes centros. O território passa a gerar valor a partir do que lhe é próprio (paisagem, cultura, saberes locais) e não apenas do que lhe é importado.

Isso ganha outra camada quando combinada à acessibilidade tecnológica. Nos terraços de arroz, em áreas remotas e de difícil acesso, a tecnologia não é exceção, é parte do cotidiano.

Em meio às montanhas, há pessoas oferecendo um voo de drone por um valor acessível, para gravar imagens aéreas dos terraços e do grupo. O pagamento é via WeChat, a edição do material é feita na hora e o vídeo finalizado é entregue no próprio aplicativo – veja no vídeo abaixo o que fizemos durante a visita. Tudo isso sem barreiras técnicas. A tecnologia opera não como privilégio urbano, mas como infraestrutura disponível.

São detalhes, não tão pequenos, que revelam algo maior: o turismo é pensado junto com meios concretos de captura de valor, circulação de imagem e amplificação do território. A paisagem não é apenas contemplada, ela é convertida em ativo comunicável, compartilhável e monetizável, inclusive pelo visitante.

Mas o turismo, isoladamente, não sustenta escala.

Fotos da nossa visita ao museu, do show tradicional apresentado no centro cultural e duas mulheres desta tradição, com quem tivemos o prazer de conversar – clique para ampliar

O digital como ponte

O que torna esse modelo efetivamente estratégico é sua articulação com plataformas digitais de comércio, logística e pagamento. Produtos artesanais, alimentos locais e experiências culturais passam a circular para além do território físico. O interior deixa de ser fim de linha e passa a operar como origem de valor.

Essa dinâmica altera a geografia da renda. Parte relevante do valor gerado permanece no território, fortalecendo economias locais e criando incentivos concretos para a permanência das populações (como no caso das Yao). Ao mesmo tempo, saberes tradicionais passam a ser reconhecidos como ativos econômicos, e não apenas como herança cultural ou curiosidade folclórica. O conhecimento deixa de ser invisível para se tornar produtivo sem, necessariamente, perder seu enraizamento.

Para o Brasil, a provocação é direta: somos um país com vasta diversidade étnica – apenas em termos de línguas indígenas, são mais de 270 -, sem falar no patrimônio ancestral de manejo ambiental e medicina tradicional. No entanto, ainda tratamos esse capital como atraso, isso quando não é claramente ignorado.

A experiência de Guangxi sugere outra pergunta, mais incômoda do que tecnológica: quantos sistemas deixamos de construir porque seguimos incapazes de reconhecer o valor estratégico daquilo que já existe?

O digital, quando bem orquestrado, não apaga o território. Ele pode, se houver decisão política e cultural, torná-lo visível, viável e central.

Fotos da presença da tecnologia no interior – clique para ampliar

Tensões que fazem parte do desenho

Para entrar no mercado, exige-se padronização mínima: embalagens, narrativas, prazos, preços. O que ganha escala tende a se repetir. O que não se adapta corre o risco de desaparecer. É nesse ponto que o modelo revela sua complexidade. Preservar cultura e ampliar renda não é um processo linear. Dialetos locais são simplificados ou abandonados em favor do mandarim. Práticas culturais são ajustadas ao olhar do visitante. A mercantilização do simbólico é um risco real.

Quem decide o que se transforma, em que ritmo e com quais contrapartidas? Quando a comunidade participa efetivamente das escolhas, o processo tende a gerar pertencimento e continuidade. Quando as decisões vêm de fora, a cultura se converte em cenário. Guangxi oferece um campo de experimentação. O interior não é congelado no tempo, mas tampouco é apagado em nome da eficiência.

O que isso diz sobre estratégia, mercado digital e o Brasil

Penso nos seguintes eixos:

  • Desenvolvimento territorial exige intenção.
  • Turismo isolado gera dependência.
  • Digitalização sem cultura gera descaracterização.
  • Preservação sem renda gera estagnação.

O interior tem potencial de redistribuir crescimento, reduzir pressão sobre grandes centros, preservar diversidade cultural com viabilidade econômica e criar fluxos de valor mais distribuídos e resilientes. Mais do que tudo, os interiores e as pessoas que ali vivem são potências.

No Brasil, temos interiores ricos em cultura, biodiversidade e saberes locais, frequentemente tratados como passivo social ou problema logístico. A experiência chinesa sugere reposicionar o interior como centro de uma estratégia própria.

Aqui cabe um convite para conhecer algumas das iniciativas brasileiras apresentadas na COP30 em Belém, que usam a tecnologia para unir saberes ancestrais e modernos em prol da mitigação das mudanças climáticas e soluções sustentáveis. Você pode ver mais detalhes neste relatório elaborado pela mundo UM e encomendado pelo Grupo Alun.

É uma questão de decisão

Quais territórios seguimos tratando com descaso quando poderiam ser centrais para uma estratégia de desenvolvimento mais distribuída, diversa e resiliente? O interior não precisa ser “integrado” ao futuro. Ele precisa ser desenhado como parte constitutiva dele.

Na Teoria U, há muito se afirma que a transformação emerge das margens. Desenvolvida por Otto Scharmer, a Teoria U parte justamente dessa premissa: o futuro não nasce da repetição do centro, mas da escuta profunda daquilo que foi historicamente silenciado.

Inovar, nesse sentido, não é acelerar soluções conhecidas, mas criar condições para que novas possibilidades possam emergir muitas vezes a partir das bordas do sistema.

Quer saber mais sobre Teoria U? Assista a este episódio do FIAP Decode que eu participei. Você também pode fazer meu curso na Alura: Teoria U: desenvolvendo habilidades para liderar transformações.

É nesse ponto que iniciativas como o MatriHub se inserem. O projeto articula ancestralidade e inovação ao criar uma rede global de colaboração e estudos matriarcais, conectando saberes historicamente marginalizados a debates contemporâneos sobre desenvolvimento, liderança, cultura e futuro. Mais do que um espaço de troca, o MatriHub propõe uma inversão de lógica: olhar para as margens como fonte legítima de conhecimento, infraestrutura simbólica e possibilidade de transformação.

Para quem quiser acompanhar documentários, pesquisas e conteúdos sobre os Yao, o Nüshu e outros temas que serão lançados ao longo do projeto, é possível saber mais em matrihub.com e seguir o MatriHub nas redes sociais: @matri.hub no Instagram e @matrihub no TikTok.

Porque, no fim, não se trata apenas de tecnologia, território ou mercado. Trata-se de decisão. Decidir quem escutamos, quais saberes reconhecemos e de onde permitimos que o futuro emerja.

Leia todos os artigos da série Inovação na China

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Autora: Mara Carneiro – Cofundadora do Impact Lab no Grupo Alun (FIAP, Alura, PM3 e StartSe), já coordenou MBAs na FIAP e FIAP para Empresas, e atualmente é professora nas áreas de inovação, gestão de mudança e empreendedorismo da instituição. É fundadora do MatriHub e documentarista, e realiza pesquisas de campo internacionais para traduzir inteligência colaborativa em estratégia de negócios. É graduada pela USP, com MBA pela FGV e Especialização em Teoria U (MIT), Mindfulness Design (DeROSE Method) e na HAGIA Akademie (Alemanha), somando 20 anos em inovação e liderança. LinkedIn | E-Mail

Imagem de Redação FIAP

Autora

Redação FIAP

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