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Tecnologia

O código roubado: o pioneirismo esquecido das mulheres na tecnologia 

Publicado

03 de março

O código roubado: o pioneirismo esquecido das mulheres na tecnologia 
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Resumo

A presença feminina na tecnologia é uma história que começou com protagonismo, mas sofreu interrupções culturais. Entenda as razões históricas da exclusão feminina, o impacto técnico dos algoritmos com viés e como o mercado está redesenhando o futuro por meio da diversidade e da liderança inclusiva.

Feche os olhos por um segundo e tente imaginar uma pessoa programadora. Provavelmente você visualizou um homem jovem, de moletom com capuz, rodeado de monitores com linhas de código piscando na tela. Mas por que temos esse “estoque” padrão de imagens mentais, se o primeiríssimo algoritmo da história foi escrito por uma mulher usando roupas de seda, cetim e outros tecidos nobres?

imagem mostra pintura de ada lovelace, usando um vestido em tom claro e uma capa escura
Ada Lovelace em suas roupas aristocráticas

Isso mesmo, o primeiro algoritmo de que se tem registro foi escrito por Ada Lovelace em 1843, uma época em que as mulheres sequer podiam votar. Décadas mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, foram seis mulheres que programaram o ENIAC, o primeiro computador eletrônico de grande escala dos Estados Unidos: Jean Bartik, Frances Bilas, Betty Jennings, Ruth Lichterman, Marilyn Wescoff e Fran Bilas

Elas não tinham manuais. Aprenderam a máquina estudando diagramas e manipulando os cabos e interruptores de um equipamento que pesava 27 toneladas. 

Então, por que na década de 80 a porcentagem de mulheres nos cursos de Ciência da Computação ao redor do mundo despencou e nunca mais se recuperou? Não foi um processo natural de desinteresse, nem biologia, nem falta de aptidão. Foi o que muitos historiadores chamam de “o código roubado”. 

Quando programar era ‘coisa de mulher’ 

Para entender como as mulheres perderam o protagonismo na área de tecnologia, é preciso observar o que veio antes. Nos anos 1940 e 1950, a computação era dividida em duas grandes tarefas: construir o hardware (o trabalho físico de engenharia, considerado ‘pesado’ e reservado aos homens) e programar o software, uma atividade comparada, na época, a seguir receitas de culinária ou tricotar. Ou seja, algo “adequado” para as mulheres. 

Esse julgamento era equivocado, claro, mas o preconceito, paradoxalmente, abriu as portas para uma geração inteira de pioneiras. Além das programadoras do ENIAC, a história da computação foi moldada por nomes como Grace Hopper, matemática que criou o COBOL, uma das primeiras linguagens de programação. O COBOL foi revolucionário: tornou o código mais legível e democratizou o acesso à programação.  

Não por acaso, houve resistência. À época, muitos achavam que linguagens mais acessíveis ‘degradavam’ a programação. Havia um interesse claro em manter a área difícil e de alto prestígio. Esse foi o primeiro sinal de uma batalha cultural que se estenderia nas décadas seguintes. 

A profissionalização como barreira de exclusão 

Nos anos 1960 e 1970, o jogo começou a virar.  À medida que os salários na área de software começaram a subir, surgiram associações profissionais e os testes de aptidão.

Curiosamente, muitos desses testes (como o PAT – Programmer Aptitude Test) começaram a valorizar perfis “antissociais” e “focados em objetos em vez de pessoas”, um viés que beneficiava o estereótipo masculino da época 

1984: o ano em que o código mudou de dono 

Se você observar o gráfico de participação feminina nos cursos de Ciência da Computação nos Estados Unidos, entre as décadas de 1960 e 1990, vai notar algo curioso: enquanto a presença de mulheres crescia em medicina, direito e ciências biológicas, em 1984 a curva de computação simplesmente desabou. Não foi algo gradual.  

O que aconteceu com as mulheres em Ciências da Computação? Clique para ampliar.

Mas o que aconteceu em 1984? O computador pessoal chegou às casas americanas. E mais importante do que isso: ele foi vendido quase que exclusivamente como um brinquedo para meninos. Isso porque os anúncios de Apple, Commodore 64, Atari e de outras marcas da época mostravam pais e filhos explorando as máquinas. As mulheres e meninas apareciam, mas geralmente como coadjuvantes, em um contexto ampliado, não como foco principal para aquele produto. 

O impacto foi imediato, como documentado pelas pesquisadoras Jane Margolis e Allan Fisher no livro Unlocking the Clubhouse. Meninos cresceram com computadores em casa. Quando chegavam à faculdade, já tinham anos de experiência em jogos, programação e exploração do sistema.  

A cultura pop fez o resto. Filmes como WarGames (1983) e Revenge of the Nerds (1984) reforçaram o estereótipo do ‘nerd antissocial’, introspectivo, obcecado por máquinas, e… masculino. Essas imagens diziam ao mundo quem pertencia àquele espaço e quem não pertencia. E funcionou

O duto com vazamento: o que os dados revelam hoje 

A metáfora do ‘leaking pipeline’ (duto com vazamento) descreve um fenômeno real e documentado: mulheres entram na carreira de tecnologia, mas vão saindo ao longo do caminho, em proporções muito maiores do que os homens.  

O 2025 Lovelace Report revela que mulheres abandonam a área de tech duas vezes mais que os homens, e quase 80% das profissionais ouvidas já saíram ou estão considerando sair do setor.  

Um estudo da Accenture, em parceria com a Girls Who Code, aponta que 50% das mulheres que ingressam na tecnologia abandonam a área antes dos 35 anos, citando cultura não inclusiva como principal razão.  

Não se trata de falta de interesse ou capacidade. Trata-se de um ambiente que, com frequência, empurra essas profissionais para fora. Os fatores são múltiplos. Entre os mais documentados estão: 

  • Cultura brogrammer: em muitas empresas, ainda impera uma cultura de fraternidade (o termo “bro” + “programmer”), onde o comportamento machista é mascarado como “brincadeira” e onde o mérito é medido por horas extras excessivas. 
  • Síndrome (ou Fenômeno) do impostor: o sentimento de não pertencer é mais intenso e frequente entre mulheres em áreas dominadas por homens. Quando o ambiente reforça que você é uma exceção e não a regra, a tendência é questionar a própria competência. 
  • Maternidade: a ausência de políticas de licença parental igualitária e de estrutura de apoio à maternidade faz com que muitas mulheres precisem escolher entre a carreira e a família.  

IA e o viés de gênero: um alerta urgente 

Esse talvez seja o mais urgente dos desdobramentos. Não se trata apenas de um problema ético: é um problema de qualidade técnica. Se as mulheres não estão programando os algoritmos, a tecnologia é criada com preconceitos profundos. 

Algoritmos de recrutamento treinados com dados históricos, que refletem décadas de exclusão feminina, amplificam esse viés. Um caso notório foi o de um sistema de triagem da Amazon que penalizava automaticamente currículos que contivessem a palavra ‘mulheres’, por exemplo em referência a organizações femininas estudantis ou de carreira. 

A diversidade no código é a única vacina contra uma tecnologia que perpetua as injustiças do passado. 

Leia mais sobre isso neste artigo da professora Keylla Saes: O futuro é plural: caminhos para reverter a exclusão feminina na Inteligência Artificial

Estratégias de reocupação: o que realmente funciona 

A boa notícia é que há evidências de que a mudança é possível e o mercado está percebendo que a exclusão feminina é um mau negócio. Segundo um estudo da McKinsey, empresas com maior diversidade de gênero em suas equipes têm 25% mais probabilidade de obter lucratividade acima da média do setor.

Um relatório da Boston Consulting Group corrobora: quando as equipes de liderança são diversas, a receita proveniente de inovação chega a ser 19% maior do que a de empresas com liderança homogênea

Iniciativas de comunidades como Code By Girls, PyLadies, Mulheres na Computação, Codificadas e {re}programa, entre tantos outros, estão fazendo o trabalho de base que o marketing dos anos 80 destruiu. Elas criam espaços seguros de aprendizado, mentoria e, principalmente, de rede de apoio. 

Essas iniciativas têm algo em comum: criam pertencimento antes de cobrar desempenho. Elas entendem que o problema não é a aptidão das mulheres para a tecnologia, mas sim a ausência de espelhos, referências e redes de suporte que as ajudem a permanecer no setor. 

A FIAP faz a sua parte, criando iniciativas focadas em aumentar a participação, capacitação e destaque das mulheres no setor de tecnologia, incluindo eventos, projetos sociais e programas de inclusão. Entendemos que quebrar esses muros exige mais do que apenas discursos: exige uma mudança estrutural na forma como ensinamos tecnologia. 

Confira alguns dos meetups e lives recentes sobre o assunto: 

As habilidades que a diversidade exige  

Construir ambientes mais inclusivos na tecnologia exige um conjunto de habilidades que vai além da programação. Para profissionaisde tecnologia que querem contribuir ativamente para essa mudança, algumas práticas são especialmente eficazes: 

  • Mentoria ativa e intencional: profissionais experientes, independentemente do gênero, que dedicam tempo a orientar mulheres em início de carreira criam um efeito multiplicador. Mentoria é investimento em capital humano que retorna em forma de inovação. 
  • Revisão de processos seletivos: adotar entrevistas estruturadas, revisão cega de portfólios e critérios de avaliação claros reduz o espaço para vieses inconscientes.  
  • Letramento em diversidade e inclusão: entender os mecanismos históricos e estruturais que produziram a desigualdade é o primeiro passo para não os reproduzir. 
  • Criar ambientes seguros: garantir que laboratórios e hackatons em espaços acadêmicos sejam ambientes onde a voz feminina tenha o mesmo peso e autoridade. 

Escrevendo as próximas linhas do código 

A história que contamos aqui não é apenas sobre injustiça histórica. É sobre um erro de cálculo enorme e perigoso que a indústria tecnológica cometeu ao desperdiçar potencial.

Cada algoritmo desenvolvido sem perspectivas diversas é um algoritmo com pontos cegos. Cada produto de tecnologia criado por essas mesmas equipes é um produto que falha em compreender a realidade de bilhões de usuários. 

A tecnologia é a linguagem do poder no século XXI. Se você domina o código, você domina a capacidade de moldar a realidade.  

O código foi roubado, é verdade. Mas o terminal está aberto, e a senha para o futuro é a diversidade.  

Mulheres e meninas na tecnologia: conheça algumas iniciativas

Comunidades parceiras da FIAP

  • The Fem Tech – https://www.instagram.com/thefemtech/ – Criada em 2019, é um espaço de fortalecimento de mulheres na tecnologia, ampliando seu diálogo para quem acredita em liderança consciente, diversidade real e transformação sistêmica.
  • Iniciativa Fridas – https://www.instagram.com/iniciativa.fridas/ – É focada em fortalecimento e crescimento profissional de mulheres, especialmente no mercado de tecnologia e inovação. Atua com mentorias, bootcamps e eventos.

Grupos brasileiros

  • PretaLab – https://www.pretalab.com/ – Plataforma que conecta mulheres negras que são ou gostariam de ser da tecnologia, por meio de ciclos formativos, rede de profissionais, mercado de trabalho, consultorias e estudos.
  • BRAVAS In Tech – https://www.bravasintech.com/ – Comunidade de meninas e mulheres promovendo conexão, mentorias e troca de experiências no setor tech
  • WoMakersCode – https://womakerscode.org/ – Comunidade e ONG brasileira para educação, mentoria e apoio à carreira de mulheres na tecnologia
  • Tech Girls – https://techgirls.ong.br/ – Iniciativa brasileira com oficinas e formação em tecnologia (software, hardware e economia circular)
  • PrograMaria – https://www.programaria.org/ – Organização focada em diversidade, inclusão e formação de mulheres e gêneros minorizados em tecnologia (cursos, eventos e comunidade)
  • Women in Tech Brazil – https://women-in-tech.org/brazil/ – Capítulo oficial no Brasil do movimento global, com networking, mentorias, eventos e iniciativas de inclusão

Grupos internacionais

  • Django Girls – https://djangogirls.org/ – Organização global que oferece workshops gratuitos para mulheres aprenderem programação com Python e Django
  • Latinas in Tech – https://latinasintech.org/ – Comunidade internacional voltada para mulheres latinas na tecnologia, com programas de networking, conteúdo e oportunidades
  • WomenTech Network – https://www.womentech.net/ – Rede global de mulheres em tecnologia com conferências, eventos, networking e recursos para crescimento profissional
  • Women in Tech Global – https://women-in-tech.org/ – Movimento internacional por equidade de gênero em tech, com capítulos e eventos diversos
  • Outreachy – https://outreachy.org/ – Programa internacional de estágios remunerados em projetos de código aberto para mulheres e pessoas minorizadas no open source
  • PyLadies – https://pyladies.com/ – Grupo internacional de mulheres desenvolvedoras focado em Python, com vários capítulos no Brasil e no mundo para aprendizagem, eventos, meetups e networking
  • Women in Tech® Awards – https://womenintech-awards.com/ – Prêmio internacional que reconhece e dá visibilidade a mulheres que estão impactando a tecnologia. A premiação ocorre em diversas regiões, inclusive na América Latina.
  • Ada Lovelace Day (Finding Ada) – https://findingada.com/ – Celebração anual internacional que destaca conquistas de mulheres em ciência e tecnologia, com eventos e atividades ao redor do mundo.
Imagem de Redação FIAP

Autora

Redação FIAP

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