Resumo
O que parece apenas uma conexão aérea revela, na prática, um redesenho profundo dos fluxos globais de pessoas, comércio, inovação e poder — com impactos diretos para negócios, educação e circulação de talentos no eixo Sul–Sul.
Por Mara Carneiro – Cofundadora do Impact Lab no Grupo Alun, professora nas áreas de inovação, gestão de mudança e empreendedorismo da FIAP e FIAP para Empresas, e fundadora do MatriHub.
Este texto integra uma série de aprendizados e insights colhidos a partir de uma imersão na China, realizada em outubro de 2025 pela professora Mara Carneiro. Uma experiência em um país que deixou há tempos de ser apenas “a fábrica do mundo” para se consolidar como um dos principais laboratórios globais de inovação aplicada.
Leia o primeiro artigo da série
O voo entre Brasil e Ásia faz parada na Etiópia. Para muitos, isso se resume a uma decisão técnica: autonomia da aeronave, custo operacional, otimização de rota. Mas essa leitura é insuficiente para explicar o que está, de fato, acontecendo.
Ao pousar em Addis Ababa, a percepção muda rapidamente. A infraestrutura em expansão, o fluxo constante de conexões internacionais e a centralidade do aeroporto indicam que não se trata de improviso. Há estratégia de longo prazo.
A Etiópia vem se posicionando deliberadamente como um hub internacional no Chifre da África, conectando América Latina, África, Oriente Médio e Ásia de forma cada vez mais direta.

Essa leitura não nasce de relatórios, mas da observação em campo: a rota escolhida, o aeroporto, as conversas travadas ainda nas primeiras horas no país. A infraestrutura, aqui, fala. E revela intenção.
Hubs não são neutros: são linguagem de poder
No centro desse movimento está a operação da Ethiopian Airlines. Mais do que uma companhia aérea eficiente, ela opera como infraestrutura de Estado e vetor de integração regional e internacional.
Hoje, a Ethiopian conecta mais de 140 destinos internacionais, mantém a maior malha aérea intra-africana do mundo, com conexões para mais de 60 cidades no continente, e opera uma das frotas mais jovens e modernas do setor, com forte presença de aeronaves de longo curso.
Após a pandemia, voltou rapidamente a patamares iguais ou superiores aos do período pré-2020, superando a marca de 12 milhões de passageiros por ano.
Mas talvez o dado mais revelador não esteja nos números, e sim nas pessoas a bordo. Assim como nós, viajavam naquele voo argentinos, chineses, russos e outras nacionalidades. Nenhum de nós passou por hubs tradicionais da Europa ou dos Estados Unidos. A rota, por si só, já sinalizava um deslocamento silencioso, porém consistente, dos centros clássicos de conexão global.
BRICS: quando o Sul deixa de ser periférico
Esse reposicionamento ganha densidade estratégica com a entrada formal da Etiópia no BRICS em 1º de janeiro de 2024, após convite feito na Cúpula de Joanesburgo, em 2023. A adesão confirma o país como ator ativo em um movimento mais amplo de reorganização do poder global.Com mais de 120 milhões de habitantes (é o segundo país mais populoso da África) e sede da União Africana, a Etiópia adiciona ao bloco não apenas peso demográfico, mas capital diplomático e posicionamento estratégico.
Sua localização permite conectar África, Oriente Médio e Ásia de forma direta, funcionando como ponte natural entre economias emergentes.
Há, ainda, um componente simbólico relevante. A Etiópia foi o único país africano a não ter sido colonizado e sua bandeira carrega as cores do panafricanismo — um movimento político-intelectual e cultural que defende a unidade, a solidariedade e a autodeterminação dos povos africanos e da diáspora africana.
A ideia central é que africanos, dentro e fora do continente, compartilham uma história comum de colonização, exploração e resistência, e que essa experiência deve servir de base para cooperação política, econômica, cultural e simbólica. Nesse texto eu falo um pouco mais sobre isso e o ecossistema de startups da Etiópia.
Os BRICS vêm se consolidando como uma verdadeira infraestrutura de fluxos. Comércio, investimentos, circulação de pessoas, inovação tecnológica e produção de conhecimento passam a operar com menor intermediação do eixo Estados Unidos–Europa e maior intensidade nas conexões Sul–Sul. Hubs como Addis Ababa deixam de ser periféricos e passam a ocupar posições centrais nesse novo sistema.
Para o Brasil, isso altera premissas estratégicas. Rotas mais curtas reduzem custos logísticos e de deslocamento. Conexões diretas ampliam intercâmbios acadêmicos e empresariais. E a aproximação entre países do Sul Global cria ambientes mais férteis para soluções contextualizadas, menos dependentes de modelos importados.
Um simples jantar pode revelar mais que relatórios

Mas os sinais mais relevantes dessa transformação não estão apenas na macro infraestrutura. Estão nas pessoas.
Em Addis Ababa, aproveitamos as horas disponíveis e promovemos um jantar com empreendedores locais de tecnologia, agro, comunicação e educação.
A conversa revelou um ecossistema em formação que dialoga diretamente com desafios brasileiros: grande população rural, predominância de pequenos produtores e limitações de conectividade e letramento digital.
Conhecemos startups que atuam como plataformas integradoras para o agro familiar, iniciativas voltadas à amplificação das vozes femininas e da juventude e soluções educacionais baseadas em tecnologia aplicada. São inovações que nascem do contexto e não da importação acrítica de modelos prontos.
Também tivemos a oportunidade de estar com Meron Sileshi, Chief of Voice na NextGen Agri Voices, que gentilmente nos convidou a conhecer a casa de sua família, mantida há 65 anos. Ali, durante um almoço preparado por ela, ouvimos histórias familiares e geracionais da força das mulheres e empreendedorismo feminino, profundamente relevante na geração de riqueza e na preservação cultural.
Essa experiência foi registrada em uma breve entrevista feita para o projeto MatriHub, que amplia ainda mais esse olhar sobre inovação, território e pessoas.

Em resumo, é na mesa de um jantar ou almoço, nas trocas informais e nas conversas sobre políticas públicas, capital e regulação que o desenho macro se confirma no micro. Nesse sentido, fica o convite para repensar inovação, jornadas de aprendizagem e adotar um olhar mais curioso.
Que tal, na sua próxima viagem, estabelecer conexões significativas com seus pares e conhecer mais de perto as realidades e movimentos locais?
Circulação de talentos é infraestrutura invisível
Hubs globais não movimentam apenas cargas. Movimentam repertório. Addis Ababa se consolida como ponto de encontro de empreendedores africanos com vivência internacional, profissionais que passaram por programas de intercâmbio, universidades estrangeiras e feiras globais.
As conexões promovidas ali aceleram o aprendizado, ampliam referências e criam um cosmopolitismo funcional, menos dependente de validação europeia ou norte-americana. Talento circula onde há acesso, conexão e possibilidade real de construir redes.
A Etiópia passa a oferecer esse ambiente. E, ao fazê-lo, reposiciona-se no mapa global do trabalho qualificado e da inovação.
Não é sobre o vôo, é sobre o mapa
Para empresas, universidades e formuladores de política no Brasil, a mensagem é que insistir em mapas antigos gera decisões defasadas. Internacionalização já não pode ser pensada apenas em termos de Estados Unidos e Europa. Novos polos de decisão, inovação e produção de conhecimento estão emergindo e muitos deles passam por África e Ásia. Para instituições educacionais, compreender esses movimentos é formar líderes capazes de ler sistemas complexos, identificar sinais antecipatórios e atuar em um mundo policêntrico.
Tratar a parada na Etiópia como “escala” é um erro de leitura. Ela é um sinal inequívoco de que a geopolítica contemporânea se expressa em rotas aéreas, hubs logísticos e encontros improváveis entre pessoas que, até pouco tempo atrás, dificilmente estariam conectadas.
A pergunta que fica não é para onde o voo vai. É se continuaremos decidindo como se o mundo ainda obedecesse aos mapas do século passado.
Veja os posts anteriores da série Missão China
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Autora: Mara Carneiro – Cofundadora do Impact Lab no Grupo Alun (FIAP, Alura, PM3 e StartSe), já coordenou MBAs na FIAP e FIAP para Empresas, e atualmente é professora nas áreas de inovação, gestão de mudança e empreendedorismo da instituição. É fundadora do MatriHub e documentarista, e realiza pesquisas de campo internacionais para traduzir inteligência colaborativa em estratégia de negócios. É graduada pela USP, com MBA pela FGV e Especialização em Teoria U (MIT), Mindfulness Design (DeROSE Method) e na HAGIA Akademie (Alemanha), somando 20 anos em inovação e liderança. LinkedIn | E-Mail





