Transformação digital e transformação de processos caminham juntas na sua empresa?

18 de julho de 2018
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artigo prof micelli

Acredito muito na seguinte frase: “Mudança não é o destino. É a jornada.” E, ao mesmo tempo em que essa frase ecoa – ou pelo menos deveria ecoar – quase como um mantra para o mundo dos negócios, parece estar cada vez mais afastada da realidade estratégica e operacional das organizações. Uma outra conotação para a frase talvez seja: “Mudança não é o resultado final. É o processo.” Sendo assim, tal afirmativa nos levaria a crer que devemos nos preocupar com o processo de mudança e não somente com o resultado dela, correto? Sim, correto. E é exatamente aí que mora o perigo: quando as transformações digitais não são devidamente alicerçadas por bons processos, ou seja, quando esses importantes ativos organizacionais (na minha opinião o mais importante depois das pessoas) são deixados em segundo plano ou sequer são pauta de discussão em projetos disruptivos e de alto impacto empresarial e social. Nesses casos o resultado é tão óbvio quanto previsível: o insucesso ou fracasso da iniciativa.

Há uma outra frase que retrata bem a desconexão entre os mundos digital e dos negócios: “O executivo brasileiro nunca tem tempo para planejar, mas sempre tem dinheiro para refazer”. Será então que vivemos em uma era em que a urgência para alavancar negócios, seja em prol da busca da competitividade ou exponencialidade, justifica erros e mal (ou falta de) planejamento? Será que as mudanças e transformações organizacionais – sejam elas incrementais ou disruptivas – deixaram de ser meio e passaram a ser fim de si mesmas?

Projetos de transformação organizacional, por mais importantes e necessários que sejam, devem ter como objetivo principal a agregação de valor ao negócio e a todo o ecossistema envolvido, e não somente a implementação de determinada tecnologia como prova de sua competitividade.

Evidências desse descompasso é o que não faltam. São inúmeros projetos de implantação de novas tecnologias que fracassam ou não alcançam os objetivos almejados por não considerarem a transformação de processos como parte integrante da transformação digital e de negócios. Recentemente, uma importante revista brasileira de management publicou um artigo sobre “o problema da proliferação de produtos” e destacou que a inovação sem gestão conduz ao excesso de complexidade operacional. Como exemplo, uma grande multinacional criou um conjunto de redes de especialistas em processos constituído por líderes de unidades funcionais-chave que se reuniam regularmente para discutir interdependências e ajudar a projetar processos otimizados. Além de garantir o compartilhamento de conhecimento em toda a organização, ajudavam a preencher as lacunas funcionais e organizacionais dentro das unidades de negócio, bem como entre elas. O resultado disso foi a produção de maior eficiência operacional e a constatação que os processos integrados se revelaram essenciais para a inovação digital.

Outro artigo bastante contundente sobre a importância dos processos no mundo digital refere-se aos ganhos e potenciais desafios com o uso da inteligência artificial pelas empresas. Questões como o incentivo à adoção generalizada da IA, o enfrentamento de questões relacionadas ao emprego e distribuição de renda, a resolução de questões éticas e regulatórias, o asseguramento da disponibilidade de dados de treinamento e a implantação da IA em governos, apesar de consideradas, reforçam que para que as empresas tenham ganhos verdadeiramente impressionantes com IA, precisarão integrar a capacidade tecnológica adequada em seus principais processos, usá-la para tornar os funcionários mais produtivos e estruturá-la em toda a sua cadeia de valor.

O impacto das novas tecnologias na vida das pessoas é tão certo quanto é incerta a capacidade das empresas de se prepararem para o que vem pela frente. Independentemente da estratégia adotada e de que forma elas buscarão ser competitivas rumo ao “oceano azul”, elas precisarão reconhecer o verdadeiro valor dos processos: uma alavanca essencial e indispensável para a transformação sustentável de negócios.

E a sua empresa? Está preparada?

 

Alessandro Micelli – coordenador do curso de MBA em Gestão por Processos da FIAP e professor de empreendedorismo e inovação. Especialista em Leadership Excellence pelo Disney Institute (Orlando, FL). Pós-graduado (MBA) em Gestão Estratégica e Econômica de Projetos pela EAESP(FGV/SP), pós-graduado (MBA) em Gestão de Negócios e Tecnologia da Informação pela EBAP (FGV-RJ), CPO – Chief Process Officer – em Engenharia e Gestão de Processos de Negócio pela COPPE, da UFRJ.